quarta-feira, 29 de maio de 2019

O martírio dos cristãos no mundo: uma realidade quase cotidiana....


Uma série de atentados com explosões em igrejas católicas durante a celebração das missas que celebravam a Páscoa e em hotéis de luxo no Sri Lanka deixou 207 mortos e mais de 450 feridos no domingo de Páscoa 21 de abril. Em decorrência dessa situação, para evitar outros ataques, não foram rezadas missas nas igrejas, ao longo de algumas semanas.
Uma onda de ataques nas últimas semanas contra os cristãos em Burkina Faso chegaram a matar fieis e sacerdote na celebração da missa dominical: duas igrejas foram queimadas e dez cristãos (incluindo um padre e um pastor protestante) foram mortos. Depois, disso, na diocese de Ouahigouya, no dia 18 de maio, um grupo de terroristas islâmicos matou quatro fiéis em Singa, no município de Zimtenga, enquanto retornavam de uma procissão mariana. Em decorrência dessa situação, o bispo escreveu aos católicos: "Não levem sinais religiosos em público"
A irmã Ines Nieves Sancho, religiosa de 77 anos, foi encontrada morta na manhã de segunda-feira no vilarejo de Nola, perto de Berberati, na República Centro-Africana, onde ela ensinava as meninas a costurar e tentar melhorar sua vida. Seu corpo foi terrivelmente mutilado: a freira foi de fato decapitada.
O bispo de Ouahigouy, Monsenhor Kientega, pede aos seus fieis e a todos nós que se unam nessa oração:
"Que o Senhor, Príncipe da Paz e vencedor do Mal, conceda a paz ao nosso país. Que seja nossa força e nosso apoio, nossa esperança neste tempo de provação. Que ele conceda o descanso eterno aos nossos mártires e que o sangue derramado seja uma fonte de paz de fecundidade espiritual ”.
Se os atentados do dia de Páscoa foram pouco noticiados pelos jornais, muito menos os demais fatos aqui relatados. Mas o martírio dos cristãos no mundo está se tornando um acontecimento diário de nossos tempos.

domingo, 19 de maio de 2019

Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos



Nestes tempos em que também no Brasil se debate o uso das armas de fogo e estamos ainda profundamente marcados pela tragédia ocorrida na escola de Suzano, vale a pena tomar conhecimento de algo que ocorreu há poucas semanas numa cidade americana.
Devon Erickson, de 18 anos, e Maya McKinney, de 16 anos foram presos pelo tiroteio ocorrido no inicio de maio no STEM School Highlands Ranch em Denver, Colorado, resultando em um morto e oito feridos. Há vinte anos, em Columbine, uma escola longe apenas alguns quilômetros, 12 estudantes e um professor foram massacrados por dois meninos armados que conseguiram ferir outros 24 antes de cometer suicídio.
Poderia ter ocorrido um massacre análogo, desta vez também, mas não aconteceu: porque em Denver algo, grande e inesperado, aconteceu: um menino, Kendrick Castillo, ao ver seus colegas Devon e Maya entrar na sala de aula com uma arma, jogou-se sobre eles, protegendo seus companheiros e assim permitindo que se escondessem atrás das mesas ou fugissem. Kendrick morreu dando a vida para salvar seus amigos.
Qual foi a mola que levou Kendrick a se atirar, armado apenas com carne e osso, contra a arma apontada por dois garotos como ele?
Pergunta-se a jornalista Caterina Gioielli: “Quando acontecem fatos como este, tentamos entender o que aconteceu, qual é a mola que acionou o dedo dos dois garotos no gatilho de uma arma; mas se cada momento de um menino é sua história e sua liberdade, qual foi a primavera que levou um menino a dar sua vida, um significado entre o momento e o todo?” (1).
Na noite após o tiroteio, numa vigília com mais de mil jovens presentes, Brendan Bialy, que junto com outro estudante ajudou Kendrick a confrontar os atiradores, comentou: "Quem entrou no edifício com um plano maligno e com absoluta covardia, tentando nos pegar de surpresa e com armas, perdeu de qualquer maneira. Eles tiveram que se render a pessoas boas”.
A atitude de Kendrick, que o levou a dar a vida pelos outros, não foi surpresa para quem o conhecia. Conta o pai de Kendrick, John Castillo, numa entrevista ao Denver Post: "Eu gostaria que ele tivesse corrido para se esconder mas não era do estilo dele: proteger as pessoas, ajudá-las, isso estava em suas cordas". Doce, simpático, engraçado, alegre: estas são apenas algumas das palavras usadas por professores e colegas de classe para descrever esse menino que estava prestes a se formar em tecnologia e robótica: "se alguém chorava ou estava com problemas, aqui estava Kendrick correndo para falar com ele”.
Mas onde Kendrick aprendeu esse modo tão verdadeiro de viver a experiência humana? Ele participava ativamente da vida da comunidade cristã de sua cidade: era coroinha na igreja, ajudava na cozinha e servia refeições durante os encontros das escolas católicas. Os amigos o viram carregando pesadas caixas de frutas, organizando almoços para os idosos, recitando o papel de Jesus na hora da religião. Certa vez, o pai ao conversar com Kendrick sobre a possibilidade de enfrentar uma pessoa armada, lhe disse "você não deve fazer atos heroicos". Kendrick sorriu para o pai dizendo que não pensaria duas vezes antes de salvar alguém em perigo: "você me criou assim, você me fez uma boa pessoa". Ele não realizou um ato heroico, mas viveu de modo heroico o cotidiano, de modo que o cotidiano se tornasse heroico.
Nesse período, no Brasil, os cidadãos dentre os quais muitos cristãos e católicos, discutem a pertinência da legislação que amplia dotar mais amplamente a população de armas para sua defesa e se dividem em facções que assumem posturas que mais parecem ditadas pela ideologia ou pelo medo, do que pela razoabilidade.
É importante que reconheçamos, através do testemunho de Kendrick, a indicação da posição autenticamente cristã diante do problema. Não se trata de pensar em defender-se e de agir determinados pelo medo da violência, mas de afirmar o valor absoluto da vida humana assim como o próprio Cristo fez: “dando a vida para seus amigos”, dando a vida para o mundo, quando for necessário. No testemunho de Kendrick, não há nenhuma dúvida a respeito, mas somente brilha a certeza de uma RAZÃO maior.

(1) Tempi, 11 maggio 2019 https://www.tempi.it

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Conhecerás a árvore por seus frutos

(*)

No complexo contexto atual, é importante julgarmos criticamente os rumos que estamos dando a certas questões de grande impacto ao futuro do País. No Evangelho de São Mateus, o apóstolo de Cristo relata uma passagem em que o Senhor lhe ensina a distinguir verdadeiros de falsos profetas. Jesus diz: “Vocês os reconhecerão pelos seus frutos.” E continua, explicando: “Por acaso, pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? […] A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons” (Mt 7,15-20).

O Brasil vê-se, hoje, diante de dramáticas e equivocadas propostas com relação ao financiamento da ciência, tecnologia e educação. É preciso contrapô-las e revertê-las agora, para evitar danos irreparáveis que comprometerão o desenvolvimento da nossa sociedade, sua capacidade de responder aos inúmeros e imprevistos desafios que se lhe apresentarão no século XXI, e sua posição como um ator relevante e positivo no cenário internacional.

Os sucessivos cortes e contigenciamentos nos investimentos, que têm ocorrido nos últimos anos, sem sinais de reversão, já deixaram sua marca, desmontando laboratórios e grupos de pesquisa, espantando profissionais qualificados e enfraquecendo nosso sistema de formação acadêmica. É claro que qualquer despesa pública deve ser equacionada num cenário limitado de recursos, mas os custos com esses itens do orçamento devem ser vistos a partir da lógica do investimento, e não da despesa.

O mais contundente risco ao futuro do Brasil está nas recentes ameaças ao financiamento da educação superior. Na raiz das respostas para a estagnação econômica e muitos dos problemas sociais e estruturais com os quais nos confrontamos (cada vez mais integrados num único ecossistema global), não estão soluções resultantes automática ou inevitavelmente de simples ajustes fiscais, mas pessoas capazes de empreender com liberdade e de maneira inovadora, inclusive na fronteira do conhecimento. Tais atores são formados nas universidades de qualidade e engajados diretamente na reflexão acadêmica e na pesquisa científica.

A educação STEM (sigla em Inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é um ponto central de sustentação do progresso de nosso País e precisa ser estimulada e fomentada. Para resgatar a metáfora evangélica inicial, “stem”, em Inglês, não por acaso, significa tronco. Devemos, rapidamente, voltar a afirmá-la como um pilar para o nosso desenvolvimento.

Mas não podemos, sob hipótese alguma, valorizar as disciplinas científicas e tecnológicas em detrimento das humanidades, como certas manifestações do governo sugeriram recentemente, sob o risco de comprometer o futuro do País. Apesar da nossa imagem moderna de progresso estar excessivamente associada às conquistas tecnológicas, o avanço integral do conhecimento (ou seja, ciência como parte de uma cultura) depende de maneira simbiótica das Ciências Humanas. Largados a si mesmos, os fatos científicos são privados de significado profundo e de um sentido amplo. Transformá-los em conhecimento que possa construir, além de ferramentas, uma sociedade e criar caminhos para novas descobertas e desenvolvimentos depende da capacidade de julgá-los criticamente, sintetizá-los e analisá-los num contexto cultural abrangente e pensá-los de maneira integral. São a Filosofia, a Arte e as Ciências Humanas em geral que nos educam a este uso da razão total. Diminuí-las seria retirar a luz, decretar noite eterna à árvore do conhecimento.

Ulisses Barres de Almeida


(*)
Pomar de oliva com um homem e uma mulher colhendo frutas
Vicent Van Gogh Dezembro de 1889
Museu Kröller-Müller, Otterlo, Holanda

 

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Jean Vanier (1928-2019)


          
Jean Vanier morreu com 90 anos de idade no dia 7 de maio de 2019, deixando 154 comunidades de l’Arche, nascidas em 38 países nos cinco continentes e uma organização, “Fé e Luz”, que reúne dezenas de milhares de pessoas com deficiência, suas famílias e seus amigos, em 83 países ao redor do mundo.

Quem era Jean Vanier?

Uma sua entrevista (1) pode nos ajudar a responder a pergunta: “Há algo na mensagem do Evangelho que é tão simples e excessivo. Jesus fez tudo em excesso: em Caná, ele transformou a água em uma quantidade excessiva de vinho. Ele multiplicou uma quantidade excessiva de pão e amar os inimigos é um excesso de amor. Tudo é excessivo porque o amor só pode ser excessivo”. Assim, ser cristão, "não é apenas viver uma lei moral, não é apenas ser bom. Você tem que ser um pouco louco. Há algo incrivelmente belo e exigente na mensagem do Evangelho. Mas, ao mesmo tempo, não é exigente, porque é o lugar da alegria, que não podemos criar por nós mesmos”.

A trajetória da vida de Jean Vanier encarnou estas palavras: iniciada em setembro de 1928 em Genebra, inicialmente voltada para a carreira militar na marinha canadense e posteriormente aos estudos de filosofia na Universidade de Toronto, em 1964 passou por uma mudança radical pela decisão de dedicar-se aos doentes mentais, fundando L’Arche em Trosly (França), uma comunidade acolhedora para pessoas com deficiências. "Essas pessoas – afirma - não eram vistas como seres humanos com um valor. Em vez disso, descobri o Evangelho neles”. Assim L’Arche nasceu e ao longo dos anos se espalhou pelo mundo.

Vanier não era apenas um homem interessado em "fazer pequenas coisas boas para os pequenos": queria "seguir Jesus" e ser "excessivo", mesmo que parecesse "um pouco louco". Santa Teresa de Lisieux, Santa Teresa de Calcutá, São Oscar Romero foram seus modelos. Em entrevista ao Avvenire, Jean Vanier diz: "Anunciar as boas novas não é dizer: Deus te ama, mas eu te amo e quero me envolver com você. Nem todos somos chamados a fazer grandes coisas que conquistam as primeiras páginas dos jornais, mas todos somos chamados a amar e ser amados, onde quer que estejamos”.

De Vanier disse ontem Papa Francisco, expressando sua gratidão por ele: “foi um homem capaz de ler o mistério dos que foram descartados e desprezados pelo mundo” (Avvenire 8 de maio de 2019, p. 4).


Nota : 
(1) https://www.catholicherald.com/News/National___International/International/Jean_Vanier_changed_the_lives_of_intellectually_disabled/retirado de websiste em 08/05/2019.)


terça-feira, 7 de maio de 2019

A URGENCIA DE CONSTRUIR O BEM COMUM Uma missão para a Igreja


         «Sem perseguir com constância, empenho e inteligência o bem comum, nem mesmo os indivíduos podem aproveitar seus direitos e alcançar suas mais nobres aspirações, porque faltaria o espaço ordenado e civilizado em que viver e operar " (Papa Francisco, discurso para a cidade de Cesena. Italia)
         Estas palavras do Papa Francisco iluminam também os atuais desafios da vida política do Brasil.
         É questão crucial a construção desse espaço a que o Papa Francisco se refere.
Em primeiro lugar, cada ser humano carrega em si “nobres aspirações”, afirma o Papa: a estima por si e pelo outro nasce do reconhecimento deste ser que cada um é: ser humano.  Sujeito portador de exigências e evidências constitutivas que movem cada um em sua relação com a realidade; e também movem os povos em busca de sua felicidade, como Giussani lembra em “O senso religioso”.  A afirmação do ser pessoal do homem iniciou na tradição do Ocidente pelo reconhecimento dessa característica propriamente humana. Em um dos documentos fundantes da filosofia grega, o diálogo do Fedon, Sócrates lembra a seus interlocutores que a busca da beleza, da verdade, da justiça, do amor são as evidencias que o ser humano é dotado de uma alma racional, que transcende a corporeidade, e que o diferencia dos demais seres vivos. Se faltar essa estima para si e para o outro, não é possível construir um mundo humano.
Mas isto não é suficiente.  
       Com efeito, apesar de cada um buscar a realização de suas aspirações autênticas, de paz, justiça, verdade, etc , através de todas as ações, seja privadas ou públicas e percorrendo diferentes caminhos, não podemos  ingenuamente pensar que alcançaremos esse objetivo “ sem perseguir com constância, compromisso e inteligência, o bem comum”.  As dificuldades, incompreensões, confusões, etc  que permeiam a vida social e política do Brasil nestes tempos, põem isto em grande evidencia.
      É preciso de âmbitos onde as aspirações de cada um possam se apoiar numa rede de relações humanas e sociais em que a pessoa possa ter consciência de si mesma, de suas necessidades e de seus direitos.  O bem comum é o terreno para a construção de um espaço autenticamente político na sociedade: um “espaço ordenado e civilizado”. 
       Mais uma vez, a filosofia grega mostrou para a humanidade que o ser propriamente humano precisa de um espaço em que sua vida possa ser afirmada: a polis. 
     Sem a cura e a valorização das relações que constituem as pessoas num povo, não há possibilidade também de valorização dos indivíduos, nem de afirmação e preservação de seus direitos.  O grande desafio neste momento é cuidar de preservar e de educar uma dimensão que é constitutiva da vida de um País e que demanda a corresponsabilidade de cada um: um patrimônio de bem comum a todos; e um método para construí-lo e preserva-lo: não a contraposição entre ideologias, mas o dialogo entre sujeitos, pessoas e comunidades que sejam.  
     A Igreja no mundo, e no Brasil, se propõe, ontem como hoje, como o lugar educativo para esse diálogo, para essa construção.  Se o Brasil apesar de toda a violência que atravessou e atravessa sua história, apesar de todas as diferenças entre suas componentes étnicas, sociais, culturais, etc. se constituiu como um povo, o devemos a essa presença a que os missionários deram carne, desde o século XVI. Hoje, temos que dar continuidade a esse caminho.  Pois sabemos que ele carrega em si, no tempo humano, uma indomabilidade, uma criatividade e uma capacidade de acolhida e de misericórdia, que lhe vem do próprio Deus.  Assim poderemos testemunhar aquela “constância, empenho e inteligência” a que Papa Francisco nos convoca.