domingo, 9 de outubro de 2016

Vamos aos fatos: as melhores notícias, muitas vezes, não chegam a nós


Mia Couto, escritor moçambicano, disse uma vez que um dos fatores que mais ajudam a estimular a violência nos tempos atuais é a produção do medo. O medo é produzido de muitas formas: pela solidão e fragmentação social, pela indústria de armas que estimulam de muitas formas as guerras... e também, de forma não menos importante, pela mídia que gera uma impressão generalizada de que tudo vai muito mal. Um estudo recente mostrou que noticiar exaustivamente os ataques terroristas e suicidas estimula outras pessoas a seguirem o exemplo.
Em um artigo do New York Times, Nicholas Kristof se pergunta: “nós do universo do jornalismo e das agências humanitárias não erramos ao dedicar tanta atenção para o sofrimento humano a ponto de dar ao público a impressão equivocada segundo a qual tudo está indo muito mal”? E relata como é equivocada e fora da realidade esta impressão (justamente – contribui para estimular o medo e o desânimo).
Como exemplo desse viés, cita notícias importantes que não chegam a nós, pois a mídia as negligencia, escolhendo e preferindo as negativas:
  1. Um dos fatos atuais mais clamorosos e que nos deve deixar estupefatos é o dado sobre a pobreza no mundo. A recente Assembleia Geral das Nações Unidas mostrou dados extraordinários que demonstram que “estamos num momento histórico de inflexão. O número de pessoas vivendo na pobreza extrema (US$ 1,90 por pessoa por dia) caiu pela metade em duas décadas, e o número de crianças pequenas morrendo teve queda semelhante – são seis milhões de vidas salvas todo ano pelas vacinas, incentivo ao aleitamento materno, remédios para pneumonia e tratamentos contra a diarreia!”. Assim, argumenta que é preciso anunciar ao mundo que o processo mais importante que aconteceu no início do século XXI foi a impressionante redução do sofrimento humano. Em 1981, 44% da população mundial vivia na extrema pobreza (segundo dados do Banco Mundial), e calcula-se que este número se tenha reduzido para menos de 10% e continua em queda!
  2. Ele cita ainda outros fatos de deixar qualquer um de queixo caído de surpresa (tal é a nossa visão equivocada e a falta de informação sobre o mundo atual). Durante toda a história da humanidade até a década de 1960, a maioria dos adultos era analfabeta, sendo que atualmente 85% dos adultos presentes no mundo já foram alfabetizados e a proporção está aumentando.
  3. A desigualdade no mundo está em queda por causa dos ganhos conquistados pelos pobres em países como a China e a Índia que contam com cerca de um terço da população mundial. Por isso, a ONU tem como objetivo factível erradicar a pobreza extrema até 2030.
É necessário considerar que esta transformação da condição humana ocorreu num período de 20 anos, ao passo que a pobreza e as péssimas condições de vida assolaram a maior parte da humanidade por milhares de anos. Esses são fatos que as pessoas normais não sabem, porque ninguém ou quase ninguém os noticia. O olhar, ao invés, volta-se tendenciosamente para o mal, como se Deus nos tivesse abandonado ou o ser humano não tivesse condições de bem, ou que o bem não fosse sempre superior ao mal e colocasse um limite a este.
A tradição cristã nos ensina o contrário: educar-se a olhar sempre para o fator positivo da realidade, para os dentes brancos da carniça de um cão morto, como dizia Pe. Luigi Giussani, para não cair na armadilha de sermos instintivamente arrastados pelo mal porque produz medo.
Não se trata absolutamente de uma visão otimista da realidade, mas de uma observação atenta e realista, que não pode deixar de constatar desde tempos imemoriais, quando os homens começaram a filosofar, que a maioria dos seres humanos age sobre a terra em busca do bem, da beleza e da verdade, e com a ajuda de Deus, sempre encontrarão caminhos para alcançar essas realidades. E que o mal existe, mas não é o fator predominante. Vale lembrar ainda uma frase de Goethe no Fausto: o diabo é parte daquela força que quer sempre o mal, mas no fim acaba sempre por fazer o bem.

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